Sunday, October 28, 2012

LIVROS


Para muitos de nós (ou, na ótica dos mais fatalistas, que, contrariamente ao que penso, defendem que 2/3 do mundo são compostos por pessoas desinteressantes – e partindo, com alguma petulância, do princípio de que não faço parte dessa larga fatia da sociedade – para alguns de nós), há coisas relativamente às quais quase pode dizer “nasci a gostar disto”, ou “nasci a gostar de fazer aquilo”. Claro está que tal é impossível, e que estas predisposições genéticas, ou como lhes quiserem chamar, dependem muitíssimo do contexto em que surgimos e nos desenvolvemos, das influências que vamos tendo ao longo da vida, da ousadia em testarmos os nossos limites, and so long
Pois bem, no meu caso, creio que não errarei muito se disser que “nasci a gostar” (ou, de outra forma, que “não me lembro sequer de não gostar muito de”) de três coisas: de história, de desenhar e de livros. Daqui, creio que decorre muito do resto que me define como Luís. Claro está que foi uma trindade desastrada, esta que me calhou em rifa. Eu, se, naturalmente, não abdico de nenhum destes predicados, admito, no entanto, que algumas vezes desejei que, aos três (como bom Mathias, não vou abrir mão de qualquer um, desde logo porque me iria sentir “coxo”!) se juntasse um ou outro mais popular. Por que diabo não sei eu jogar futebol e sou tão aselha mesmo para o único desporto que pratico com entusiasmo (o ténis)?!? Isso é terrível para quem não suporta perder, como é o meu caso (embora seja altamente saudável para umas “liçõezinhas de humildade” de que não raro careço!). E por que sou tão duro de ouvido, que nem uma porcaria de uns acordes numa guitarra consigo acertar? Teria dado muito jeito, nos meus longínquos 15, 16 e 17 anos (altura em que desenhar bem, escrever não muito mal e saber identificar mais facilmente estilos de cadeiras do século XVIII do que jogadores do futebol não é, a curto prazo, assaz prometedor! LOL).
Tudo isto para dizer, afinal, que gosto de livros – mais, que gosto MUITO de livros. Mesmo que isso fosse quase inevitável: cá em casa, os livros erguem-se por todos os cantos, em torres, muralhas e ameias, formando castelos que assustam os menos preparados. O cenário repete-se nas casas de vários dos meus tios, e o mesmo se passava na dos meus Avós. Uma irmã do meu Avô tinha tão poucos livros que se viu obrigada a afetar três salas da sua casa a biblioteca doméstica, e eu recordo-me de, em dada altura, a mesa da sala de jantar estar inutilizada por se achar coberta por livros. Portanto, praticamente se poderia dizer: como nada podias fazer contra eles, juntaste-te a eles! Ora, esta livralhada que permanentemente me rodeia, e no meio da qual me sinto especialmente confortável, também sempre primou pela heterogeneidade. O meu Avô era professor de Agronomia, a minha Avó de Literatura. A minha Mãe é matemática, o meu Pai de Letras, a minha mana de Biologia e os meus nove tios direitos seguiram todos áreas diferentes uns dos outros. E eu sou de Direito. Por isso, estou acostumado a ver livros de álgebra à mistura com trabalhos sobre jornalismo, romances mesclados com monografias históricas, cartapácios jurídicos a par de estudos sobre o fitoplâncton, teses sobre culturas tropicais e milho híbrido emparelhadas com histórias da literatura francesa, calhamaços latinos encostados a bandas desenhadas (para quem gosta de livros e de desenhar, a BD é uma escolha natural) e ensaios pios. Ah! E a bibliografia gastronómica que o meu progenitor acumula paredes meias com delicados volumes de poesia. A minha irmã costuma dizer – com a graça cáustica que herdou da nossa Avó materna – que ainda hoje tem dificuldade em perceber porque é que, num dia em que estava à procura de um código qualquer na secretária da Teófilo, que eu lhe tinha pedido para trazer, encontrou apenas uma monografia sobre “Os privilégios do cabido da sé patriarcal de Lisboa”. O problema, argumentava, não era haver um livro sobre o tema (ela, com um background igual ao meu, está acostumada a encontrar volumes sobre os assuntos mais díspares), mas qual o motivo que me levara a consultá-lo. Claro que eu lhe expliquei ser um estudo interessantíssimo, que me tinha dado imenso jeito para escrever uma nota biográfica sobre um velho tio que fora cónego da patriarcal e deputado (estava a Mª Filomena Mónica a ultimar o seu trabalho sobre os deputados oitocentistas). Ela limitou-se a dizer “sem comentários”!
Na verdade, o facto de se estar acostumado a viver rodeado de tão vasta e desirmanada livralhada pode ter aspetos muito positivos. Por um lado, percebemos que não há campos estanques de saber. Por outro, que os nossos conhecimentos, por muito que os procuremos aumentar, têm sempre largas pradarias por onde crescer (e que há sempre gente que vai bem mais avançada nesses périplos, como, felizmente, os meus tios nunca me deixaram esquecer!). Por fim, que os livros são ótimos auxiliares durante toda a vida, quaisquer que sejam os nossos estados de espírito. Comigo, pelo menos, é assim. Como toda a gente, há dias (ou partes do dia) em que estou super bem-disposto e radiante, e outros em que acordo com um humor tenebrosamente péssimo. Alturas em que estou angustiado (e não consigo pregar olho), outras em que tudo me sorri. Épocas em que me sinto mais nostálgico e períodos em que quero experimentar coisas novas. Em qualquer um desses casos, há sempre um livro adequado. Pode ser um volume que ainda não conheça, pode ser uma obra muitas vezes revisitada. Não tem, de forma alguma, de ser um romance. Eu relaxo verdadeiramente (acreditem, não é pose – aliás, quem se poderia orgulhar de uma coisa tão estúpida?!?) a folhear volumes de enciclopédias (a Portuguesa e Brasileira é a minha preferida), lendo entradas aleatoriamente. Ou a ler cartapácios genealógicos, de forma a seguir aqueles puzzles. Ou relações de bens e (o que me acalma especialmente, por muito bizarro que pareça) livros notariais com assentos de testamentos dos séculos XVIII e XIX. Insólito? Indubitavelmente! No entanto, como não sou um “intelectual” (enfim, nem sei se o sou, uso o termo como designação de alguém cujo trabalho é ler, estudar e dar aulas) nada tradicional, leio um pouco de tudo. Sou, na verdade, como dizia sobre si mesmo um professor da FEUC, bastante omnívoro em matéria literária. Depende, repito, é do estado de espírito. Quando me sinto particularmente cansado e com muito trabalho pela frente, há álbuns do Tintim que são leitura quase obrigatória e quotidiana. Quando me tenho de concentrar num tema e não me posso perder em romances, releio quase sempre as novelas de Camilo – e choro, choro, choro a rir com elas! O mesmo se passa com “Alice no País das Maravilhas”. Eu não consigo explicar porquê: mas consegue fazer-me soltar gargalhadas solitárias nos momentos de maior breu. Há passagens em que sorrio instantaneamente só de pensar nelas. Insónias? Júlio Dinis! E depois de analisar uma pilha de processos judiciais oitocentistas? Ficção científica, uma “coboiada” ou, mesmo, literatura juvenil dos anos 60 e 70. Resultado infalível: o stress processual esvai-se, e fica-se pronto para mais um molho de pendências! ;-) Se me apetece (e ainda não conheço), não vou por autores e modas: leio, e já está. Espero jamais deixar de ler alguma coisa por “não ser adequado”, “ser demasiado popular”, “ser demasiado erudito”. Sim, eu sou o tipo estranho que, depois de ler uma BD hesita se deve continuar “atacando” um estudo sobre a talha dourada no norte de Portugal ou uma análise sobre o periodismo jurídico em Braga. Ah!, nunca pondo de lado a hipótese de passar os olhos por "pérolas" como as memórias de Rita Ferro (bem melhores do que eu imaginava, já agora; mas ainda a anos-luz das de sua avó!).
Por isso, hoje, que acordei com mau humor, fiquei um bocado irritado quando constatei que o meu Pai, imbuído da melhor vontade, tentara “encaixar”, na medida do possível, a nova coleção de biografias das rainhas de Portugal (os volumes que já li estão bem maus, ao contrário dos dos reis, já agora!) numa prateleira da estante grande da sala – e, com isso, remetera para a segunda fila os policiais da Agatha Christie. Resmunguei logo com o progenitor, que me replicou imediatamente para que é que eu queria as A. C. tão à mão. “Quem é que lê isto?”, perguntava. Tive de o relembrar que as leio eu, e com muita frequência. Nesta altura de maior “atividade cerebral”, os dramas e os crimes em ambientes ainda a rescender aos restos vitorianos do império britânico são uma leitura muito adequada, a meu ver. E nada é melhor, antes de adormecer, do que “navegar” um pouco até à rica e aristocrática Chimneys e, conjuntamente com Anthony, a cáustica Bundle (Lady Eileen, ok, ok) Brent, filha do dono da casa, e a determinada e (imagino eu) mais gira Virginia Revel, procurar saber mais sobre a Herzolosváquia! ;-) Ou fazer percurso idêntico, mas já sem recorrer ao original de A. C.: há uns anos, Riviére e Suhner realizaram uma excelente adaptação para BD! ;-)

Sunday, October 21, 2012

SOLIDÃO ACOMPANHADA


Presenciei hoje, na missa – missa mais solene (pelo que mais concorrida) do que o habitual, com direito a bispo e tudo – uma cena que me perturbou. Á minha frente sentou-se uma notabilíssima académica, já muito idosa, que me pareceu, em comparação com a última vez que a tinha visto, inacreditavelmente mais frágil e dobrada sobre si no seu fato de tweed. As senhoras do banco – que não faziam a mais pequena ideia de quem ali estava – encolheram-se, com a maior das simpatias, para a idosa catedrática se sentar, a custo. Durante a celebração, creio que terá caído duas vezes numa dormência (típica das pessoas muito idosas, já se sabe) e quase tombou, no que podia ser uma queda perigosa porque desastrada. A vizinha do lado, inexcedível, passou-lhe o braço pelas costas e amparou-a. Quando da comunhão, levaram-na pelo braço e, ao sentarem-se, davam-lhe festinhas como a uma velhota da aldeia. A celebérrima classicista – que, para aquelas almas simples mas bem-intencionadas – era apenas uma velhota mais a precisar de ajuda, tem sobrinhos e sobrinhas (certamente atentos) e uma corte de admiradores e estava, naquela missa, rodeada por densa massa humana. Era, inclusive, alvo de desvelada atenção por parte dos seus “companheiros de banco”. No entanto, parecia isolada como uma ilha, náufraga numa imensa solidão acompanhada. Duvido muito que aquela mulher em tantos aspetos pioneira entre nós tenha realmente apreciado os beijos repenicados, as festas com um ar condescendente face à “pobre velhinha desvalida”, os olhares de rural preocupação e curiosidade. Mesmo que tenha apreciado os desvelos que os mesmos traduziam. No entanto, um corpo envelhecido pode ser uma prisão cruel para uma mente ainda ágil, para uma inteligência aguda e crítica.
Ora, todos nós nos sentimos, por vezes (espero sinceramente que POUCAS vezes!), assim – sós num mar de gente, que está presente e nos rodeia fisicamente, mas não nos acolhe, ou não nos. Ou, talvez pior, que nos recebe exatamente como nós não desejaríamos ser recebidos. Eu próprio não constituo exceção a esta regra e, assim de rajada, consigo imediatamente lembrar-me de meia dúzia de situações do género – mesmo que (como felizmente aconteceu na maioria delas), o cenário se tenha rapidamente revertido a meu contento. Por exemplo, a primeira vez que entrei na sala de jantar do Pio – do meu estremecido Pio, que tanto elogio e de que tantas e tantas recordações excelentes conservo – senti um frio na espinha por ser “o novo”, e ao ser olhado como “o novo”. Uma sensação que muitos de nós, que viveram situações parecidas, conhecem: como é que se faz? Onde é a fila? Onde estão os tabuleiros? Onde me vou sentar? Quem parece mais simpático (ou com um ar menos hostil?). É claro que, da vez seguinte (um dia depois), tudo se passou sem dramas.
Ou quando saí pela primeira vez sozinho à rua, na aldeia de Britona, em Goa. Durante o quilómetro e meio de tinha de calcorrear até chegar ao ferry, eu era o ÚNICO branco (abençoada sensação, na altura estranha de assimilar, mas que me permitiu compreender, ainda que muito pela rama, como é sentir-nos isolados porque diferentes num universo que, com exceção da nossa presença, parece perfeitamente homogéneo). Todos olharam  com curiosidade para o branquela de mochila às costas – e 99% dos que ali estavam não eram goeses, não eram católicos, não tinham qualquer afinidade com Portugal (traduzisse-se ela em amor ou ódio pelo nosso retângulo): eram imigrantes da grande Índia, que praticamente não falavam inglês e ali viviam, de trabalhos precários e com muitos apertos, ao longo de uma estrada ribeirinha com cheiro a peixe podre. Podiam ter sido rudes, podiam ter sido indiferentes. Afinal, eu era o elo mais fraco, e eles, provavelmente, não terão razões para acalentar especial simpatia pelos ocidentais. No entanto, no dia seguinte – e nas muitas manhãs que se lhe seguiram – que diferença! De caras sorridentes, acenavam ao branquela inofensivo que, quase sempre à mesma hora, ia pelo meio deles no ferry junto à cidade, na confusão pacata que carateriza aquelas terras fronteiras a Pangim. E o branquela retribuía, claro, aliviadíssimo, enquanto via ao longe, já no final do trajeto, a maravilhosa barra do Mandovy, que a pobreza e o desmazelo urbanístico não conseguem desfear. Confesso, contudo, que nunca aceitei os desafios para cortar o cabelo ou fazer a barba nas várias lojinhas, mais ou menos improvisadas, que havia pelo caminho!
Ou em algumas reuniões de alunos de estudos pós-graduados, onde a minha eterna condição de jurista-que-gosta-de-história ou de historiador-que-tem-formação-jurídica se tornava mais evidente e difícil de sustentar. Todos nós, que temos “um pé em cada continente” (do saber) sofremos, por vezes, estas crises.
Ou naqueles “meetings” de colegas que nem sequer são amigos – aos quais vamos por obrigação social, ou porque alguém especial insistiu na nossa (ainda que amuada) presença – em que nos sentimos desconfortáveis e fora do contexto, e só pensamos “Mas QUEM é que é esta gente? De onde é que eles saíram? Eu não os conheço nem tenho vontade nenhuma em conhecê-los”. E, olhando de soslaio para o relógio, enquanto se mata o tempo com uma qualquer e banalíssima conversação (nunca tive qualquer problema em manter conversa social, antes pelo contrário, dizem que até consigo dialogar com uma pedra! LOL) suspiramos para que chegue célere a hora da debandada!
Ou ainda quando defendemos um ponto de vista diverso de todos os que nos rodeiam e estamos convencidos de que a nossa forma de perspetivar a questão é a mais acertada, e que os que nos circundam ou emburreceram de vez, ou acham-se a sofrer de um momentâneo delírio coletivo que os impede de ver a razão – que, é claro, é a solução que advogamos
Ou, por fim, quando os que estão à nossa beira caluniam e vituperam algo que nós defendemos ou uma causa que compreendemos e partilhamos, e cobardemente nos agachamos não tendo a coragem de sustentar o nosso ponto de vista, mesmo que nos sintamos uma voz ténue a bradar no imenso deserto…
No entanto, em todas estas situações – que, afinal, também são de “solidão acompanhada” – todos nós (ou quase todos nós) podemos reagir de forma enérgica. Se eu quisesse, podia não continuar no Pio, ou passar a jantar fora, ou no meu quarto (bem burro teria sido, pois teria perdido momentos fantásticos!), ou podia ter voltado costas a Britona, ou, ainda, passado a ir para Pangim de táxi (mas teria sentido Goa como creio ter sentido? Julgo que não…). E posso escolher os grupos em que me envolvo, e abandoná-los quando me apetecer. Posso esgrimir argumentos quando estou em desacordo e a melhor maneira de vencer a sensação de cobardia é mesmo não nos agacharmos e sustentarmos os nossos pontos de vista e lutarmos em prol dos ideais em que acreditamos. Mesmo que os que nos rodeiam pareçam não estar de acordo com eles.
Podemos sempre dizer (mais ou menos veementemente, conforme necessário) “basta!” e partir para outros prados. Somos livres para escolher.
E foi esse contraste com o que vi hoje na missa que me impressionou. A grande classicista – mercê da idade e das limitações que a mesma acarreta – já não pode dizer “basta!”. Outros, mais jovens, podem estar também em situações similares: quem está acorrentado por vícios castradores, por chantagens levadas a cabo por escroques, por dívidas a agiotas pouco escrupulosos (há agiotas com escrúpulos?), pela crise que tudo corta cerce, pela ignorância que não permite deixar de viver num triste breu.
Para eles, a “solidão acompanhada” ainda é mais dolorosa do que quando nós a sentimos: é uma sensação continuada, que deve ir moendo continuadamente, até que um dia cedemos.
Oxalá nunca nenhum de nós jamais a sinta e que tenhamos sempre forças para a combater e enxotar para um canto escuro! J

Monday, October 15, 2012

O FALSO INGÉNUO E O VELHO REPULSIVO


Gosto muito de dar aulas (o que é uma imensíssima sorte, atendendo a que sou prof) e divirto-me verdadeiramente com algumas das minhas turmas, sendo que, neste aspeto, os meus “caloiros” de IAP (Introdução à Administração Pública) não me costumam dececionar. Em todas as aulas de IAP – abençoado acordo de Bolonha, que tão interessantes perspetivas veio abrir! – há uma parte (sempre mais magra do que o potencial de temas que se querem discutir) em que se abordam vários temas da atualidade, desde que, naturalmente, relacionados com a nossa Administração. Ora, como a dita é fértil em polémicas, temos pano para mangas. Em regra, o prof. (ie, eu) manda os alunos trabalhar em grupo, fora do tempo letivo, sobre um determinado assunto – com base numa notícia de jornal, num trabalho de campo, num pequeno inquérito, no capítulo de um livro –, pensar crítica e sustentadamente sobre o mesmo e, depois, na aula, nuns escassos 3 minutos, apresentar as conclusões a que chegou. Os resultados oscilam entre a monótona banalidade e as mais interessantes considerações, sendo que, felizmente, até ao presente, são estas quem tem dominado. Nos dias em que tudo corre de feição – ou seja, quando os alunos cumprem a sua parte em condições – está mais ou menos acordado (é um acordo de cavalheiros, na verdade, ou, talvez, um uso, se quisermos falar em termos mais jurídicos, adequados ao tom empregado nas aulas) que estes também usufruem da oportunidade de colocar um tema para discussão ao prof. É um tiro no escuro para mim, admito, mas a vida é mais divertida quando se correm estes riscos inofensivos.

Pois bem, como hoje os alunos se desenvencilharam bastante bem dos temas que tinham para analisar (“A gestão da informação médica relativa ao dengue na Madeira pode ser considerada reflexo de uma política de administração pública?” e “Como enquadrar a previsível derrota de Berta Cabral nas medidas que vêm sendo tomadas pelo presente governo? Pode um pacote de medidas duras em termo de administração condicionar uma eleição? Isso é positivo ou negativo?” – não se esqueçam que eles estão no 1º ano!), tiveram direito a colocar uma questão. A temática escolhida desta vez começou por me surpreender:

- Professor, como se escolhe o júri nos EUA?

Graças a Deus, há meia dúzia de semanas, em casa dos pais de um amigo meu, uma conhecida daquela família, que tem dupla nacionalidade (portuguesa e norte-americana), tinha-me explicado, em termos gerais, o processo bem interessante – e não tão linear como, até então, eu imaginava – da escolha de um júri. Por assim ser, e como não tenho má memória, acho que me consegui eximir razoavelmente do ónus de elucidar as minhas “crianças” (que de crianças nada têm, pois os mais novos já contam 18 anos). As reações foram, para minha surpresa, de algum alívio. Um chegou mesmo a dizer:

- Ah! Afinal, é muito mais sério do que eu imaginava. Eu pensava que eles iam recolhendo pelas ruas pessoas, e escolhiam quem não estava a trabalhar. Vagabundos, e assim! (!!!!)

Porém, ultrapassado o esclarecimento, uma dúvida persistia, martelando com vigor:

- Mas porque é que vocês estão tão interessados no júri dos EUA?

A resposta soou célere e em uníssono:

- Professor, por causa do Renato Seabra!

Cada vez percebia menos, pelo que continuei:

- O que é que vos deu para se lembrarem do Renato Seabra agora?

Todas as caras que me enfrentavam se cobriram de espanto e estupefação:

- O professor NÃO VIU a reportagem de ontem?

Tive de admitir que não.

- Afinal ele é um assassino! Afinal, ele andava com o velho. Afinal, ele inventou tudo – atropelavam-se, em jeito de resposta.

Antes de continuar com a descrição da aula, há que, neste passo, abrir um parêntesis necessário: à hora do almoço, fui ver a tal peça (da TVI, descobri depois…), e cheguei à conclusão de que os meus ingénuos alunos reproduziram ipsis verbis tudo o que lá se sugeria como sendo verdades incontestáveis.

Assim, em termos muito gerais, fiquei a saber que, graças a umas gravações que tinham sido entretanto disponibilizadas, creio que a título de prova, pelo hotel onde Castro e Seabra se tinham hospedado, bem como a testemunhos entretanto divulgados, o casal teria começado a viagem de forma apaixonada e, depois de várias discussões acesas, Castro teria pretendido acabar com a relação, perante o que o seu jovem amante, vendo-se afastado de um relacionamento que lhe permitia acesso a meios que almejava e a, alegadamente, algumas contrapartidas económicas, reagira violentamente. Isto, invoca-se, fora o prelúdio para o triste epílogo da questão.

É interessante notar como o caso de Seabra (e não me refiro a Castro de forma intencional, pois a eles só conta a figura, o procedimento, as consequências dos atos, etc, do jovem aspirante a modelo) – talvez por uma questão geracional, talvez por um certo sadismo característico de boa parte da humanidade – interessa aos meus alunos. Confesso que estava longe de imaginar que lhe prestassem alguma atenção. Enganei-me: conhecem-lhe os meandros, alvitram soluções, discutem pormenores, não perdem um folhetim desse mau romance de cordel bastante ensebado.

Ora, e o que penso eu sobre o assunto? Não conheço Seabra, nem conheci (desculpam a franqueza, mas digo-o sem rebuço: felizmente!) Carlos Castro; no entanto, propendo sempre para o partido do primeiro. Porquê? Essencialmente por quatro razões que nada têm a ver com o caso em questão: (i) admiro as famílias e os indivíduos que conseguem, à força de vontade e trabalho, alçar-se sempre mais longe, como creio ser o caso da irmã de Seabra (infelizmente, o rapaz parece ter sido seduzido pelo caminho oposto, do facilitanço e do arranjar encostos); (ii) nutro genuína simpatia pelo cunhado de Seabra (indiferente ao assunto, eu sei, mas que acabou por se ver envolvido em toda esta trama), ao qual devo algum aperfeiçoamento do meu – mau, por mais que me esforce – ténis; (iii) abomino as pessoas que vivem de chantagens, segredinhos e pseudo-joguinhos de poder, como creio que Castro fazia. Por dispor de uma mão cheia de dados alegadamente inconfessáveis e menos limpos (e só menos limpos por boa parte da sociedade portuguesa permanecer aferrada a uma hipocrisia que a fragiliza em vez de a fortalecer), Castro ensaiava, segundo creio, jogadas pouco claras recheadas de insinuações. Isso, para mim, é intolerável. Finalmente, (iv) sempre embirrei com as pessoas palermas que dizem aos jovens descocados como Seabra: Vai! Segue o teu sonho! – mas não lhes explicam como, nem que seguir sonhos demora tempo e dá trabalho. Caso contrário, garante, quase sempre, asneira.



No entanto, estas deambulações prévias não implicam, de forma alguma, que considere Seabra um anjo de inocência e Castro um demónio de perversão. Há que encarar o tema com alguma prudência, temperada com um conhecimento sério dos factos que não tenho nem quero ter. Posso, contudo, confessar que a minha principal impressão em torno de todo este caso – ou seja, o que me causa especial repugnância nesta história sórdida e infeta – não é o pretenso homicídio em si (por muito cruel que tenha sido), nem o horripilante Castro (por muito repulsivo que me parecesse o seu procedimento, em caça de jovens meninos aspirantes a um pseudo-estrelato e que estavam dispostos a fazer muito para o alcançar), nem Seabra (é impossível ser tão ingénuo como o pintam, e aquela tese de que se achou um mensageiro do céu é, no mínimo risível, tal como o é a ideia, que alegadamente acalentaria, que cada um muda de preferências sexuais como quem apaga ou acende um interruptor: hoje sou homo, amanhã hétero, depois talvez bi!), nem mesmo o serem dois homens (para mim, é igual serem dois homens, um homem e uma mulher, duas mulheres). Não, o que me indigna em tudo isto é – e desculpem-se se vai soar a moralismo barato, mas é genuíno – é a instrumentalização de uma pseudo-relação para fins que nada têm a ver com os sentimentos. Ou seja, nenhum deles estava (a estarem efetivamente…) com o outro porque gostava dele. Ou seja, por um simples “porque sim”. Um quereria carne fresca, o outro contactos e uns trocos. E é isso que, cada vez mais, as provas e os testemunhos recolhidos vêm demonstrando e sedimentando.

Pode ser resultado, admito, de uma certo “ideal de felicidade burguesa” que eu, alegadamente (dizem…) encareço de forma exagerada. Não o nego, nem por sombras. Mas de uma coisa estou convencido, aproveitando o post anterior: se se não estiver numa relação com uma pessoa que se considere “freneticamente beijável” no meio da mais imunda estação de camionetas, não vale a pena sequer equacionar estar. Compromissos amorosos baseados em outros interesses que não este, soam a falso… e a crime, nos casos mais extremados.

Monday, October 08, 2012

SCHMACK SCHMACK

É facto indesmentível e demonstrado à saciedade que os tempos de crise constituem terreno fértil para mudanças (mais ou menos bruscas, depende) dos hábitos sociais. Alguns deles, compreendem-se bem – eu, por exemplo, ando a fazer esforços hercúleos (e muitas visitas às bibliotecas) para não comprar tantos livros como é habitual e arredo-me prudentemente de todos os centros de “despesismo luisino”, ou, pelo menos, ao frequentá-los adopto uma postura de fria e germânica contenção. Posso dizer, com orgulho, que cheguei agora mesmo da FNAC de mãos a abanar – por muito que um “portraits de Goya” me fizesse um olho dengoso ou que na secção de papelaria houvesse um escantilhão tentador. Mas, em abono da verdade, nem um, nem outro, eram de qualquer forma indispensáveis.


Outras novidades – a o serem (estamos ainda no plano das conjecturas) – não são tão imediatamente compreensíveis. É neste patamar que situo a beijomania no cais de embarque. Eu explico-me melhor: como é sabido, sou um utente habitual dos serviços de camionagem Coimbra-Leiria, Leiria-Coimbra, Lisboa-Leiria, Leiria-Lisboa (graças a Deus há comboio entre Coimbra e Lisboa!), e, à semelhança dos muitos que se acham em idênticas condições, já vou reconhecendo, nos cais de embarque, caras habituais, práticas rotineiras, rituais e praxes, usos e costumes que dariam para compor um dos códigos que fizeram as delícias dos nossos legisladores oitocentistas (e fazem as nossas, falando dos que os estudamos hoje). É claro que, por vezes, irrompe naquela normalidade rotineira, um ou outro personagem ou situação que agitam as águas (há um par de semanas, foi o caso do transexual que, depois de negociar as condições do contrato que o levava a casa de um certo cavalheiro de Gaia, onde ia permanecer alguns dias e ser, a meu ver, regiamente pago, acedeu, no mac que trazia, à sua – como dizer… – “página promocional”, permitindo a todos nós, estivéssemos ou não interessados, ficarmos inteirados não só dos termos em que prestava os serviços anunciados mas também das suas potencialidades físicas). No entanto, e em regra, nada se passa. Ou seja, tudo o que se passa não foge à normalidade.

Foi por isso que, ontem, à espera da camio leiriense (especialmente atrasada), estranhei o furor beijoquento que grassava ao longo de tudo o cais. Não se tratava, advirta-se desde já, dos costumeiros beijos dos namorados antes de uma semana ou um par de dias afastados, do par de beijos dados às amigas quando as revemos, ou dos habituais cumprimentos aos progenitores e demasiada parentela. Nada disso: eram sessões continuadas, frenéticas, desesperadas, como se Portugal fosse os EUA e um dos beijados fosse partir desde o Dakota do Norte até à Florida! E o fenómeno não se cingia aos habituais casos pontuais, rápidos, previsíveis. Não: era uma febre avassaladora, que contagiava grande parte dos que, à minha semelhança, esperavam uma qualquer camioneta. E não pensem, almas viperinas, em sequer sugerir que eu, devido a uma qualquer carência de beijos que me pudesse estar a afectar o entendimento, é que os via e multiplicava em razão do meu desespero. Garanto-vos: era pandemia inédita e voraz.

Ora, é impossível evitar a pergunta óbvia: PORQUÊ? O que levou estas várias almas a beijarem-se tão entusiasticamente num local tão pouco hospitaleiro e agradável como a estação de camionagem da Lusa-Atenas? Não me digam que é influência do ambiente: o mau cheiro (e não, não falo apenas do derivado dos escapes) e aquele encardido que não sai, por muito que se esfregue, que todos associamos àqueles espaços não me parece ser de molde a estimular tais manifestações. Gostos são gostos, e longe de mim querer discuti-los, mas eu compreendo bem que haja situações em que, estando uma pessoa especialmente interessante (do ponto de vista beijável) nas proximidades, o ambiente ajuda. Ver e cheirar o mar, o odor de glicínias, o cheiro do calor (ah! Esse, para mim, é fatal! LOL), a aragem perfumada de um pinhal a sério, mesmo uma biblioteca que cheiro a livros – esses são cenários interessantes. Não uma porcaria de um cais de “carreiras”!

Portanto, remeto-me à explicação que, hoje em dia, neste país e nesta Europa, para tudo serve: a beijomania no cais de embarque não pode ser outra coisa que não um efeito da crise! E tenho uma tese e tudo: as pessoas estão mais deprimidas e fragilizadas, sentem mais fundo a solidão que uma ausência de um par de dias pode causar e, motivadas pelo desespero (e por uma certa vontade de imitação, pois nesta terra o “carneirismo” conta vários adeptos fiéis) beijam-se, onde nunca se beijaram (ia acrescentar “e como nunca se beijaram”, mas acho que isso é terrivelmente cruel, pelo que essa parte deve considerar-se censurada).

Enfim, mas se esta moda pega – ou se durar tanto quanto a crise (isto é, se não tiver fim à vista) – tal pode vir a ter efeitos na minha rotina de viagens. Imaginem bem que, por não gostar do cheiro de escapes e C.a, acabo por ser o único que, no terminal, não tem alguém ao lado para beijar freneticamente. Ou que (hipótese MUITO mais assustadora), todos os presentes, cedendo à beijomania no cais de embarque, começam a praticá-la, e só sobro eu e o tal travesti de aparência ranhosa… Oxalá tal não aconteça! Caso contrário, lá vou ter eu, rapaz rotineiro, de mudar os meus hábitos (mas jamais, insista-se, tal mudança passará por beijar o travesti). E não sei se, neste caso, ao contrário de muitos outros, será fácil: primeiro, é preciso convencer alguém que eu ache freneticamente beijável a acompanhar-me até ao cais (hummmm… não sei se será muito exequível); depois, imaginar que não estou rodeado da fauna habitual, naquele lugar pouco apetitoso, e entregar-me, sem restrições, à beijomania.

Talvez seja mais fácil a crise passar do que eu conseguir fazer tudo isto! ;-)