Wednesday, May 24, 2017

Regeneração eucarística para a vida

Tal como toda a gente que desde há anos recorre ocasionalmente aos táxis lisboetas, já tive oportunidade de conhecer pessoas verdadeiramente mirabolantes ao volante. Desde os que contam histórias picantes alegadamente envolvendo dirigentes políticos aos que mostram marcas de agressões feitas por assaltantes (havia um, com quem outrora me cruzava com alguma regularidade, a maior parte das vezes quando partilhava o táxi com amigos, que adorava exibir uns vergões em volta do pescoço – “marcas de uma tentativa de estrangulamento em que quase fui desta para melhor”, asseverava). Desde aqueles que pura e simplesmente não sabem para onde vão aos que nos levam aonde não queremos ir. Desde os que súbita e inesperadamente acham que são nossos velhos amigos aos que não se inibem de mostrar que estão munidos de convincente navalha – para afugentar qualquer tipo de atacante (pois quem sabe se não somos um ladrão temível?).
No entanto, nunca tinha conhecido um taxista com pretensões a seguidor de pseudo filosofias orientais. Algum dia tinha de ser: foi hoje, após um jantar de cachupa seguido de uma cerveja na companhia da Alice, do Helder e do Duarte.
Num primeiro momento, julguei-me cheio de sorte. Apanhei o táxi mal cruzei a avenida da Liberdade. Devia ser mais desconfiado: quando a esmola é demasiada…
Lá entrei no táxi (sento-me sempre ao lado do condutor) e dei as indicações necessárias para chegarmos rapidamente ao destino.
- Tantos turistas… – respondeu o homem.
- É porque está uma noite impecável. Até houve fogo-de-artifício. Não viu? Junto ao rio.
- Vi, vi. É para nos enganar a todos. É um engodo, amigo, um engodo.
- Pode ser, mas é bem giro.
Franzindo o sobrolho, replicou:
- O mundo está assim. Tudo podre, tudo ao contrário. E há dinheiro de sobra para recuperar, pôr tudo nos eixos.
- Mas estamos ainda numa época de crise.
- Oh amigo, qual crise! Eles são engenhosos, muito engenhosos. Isto é tudo inventado para nos roubarem, amigo, para nos levarem tudo.
E, depois de um instante de suspense:
- Sabe quanto lucro deu o ministério da saúde?
- Um ministério não dá lucro. Pura e simplesmente não se pode raciocinar assim.
- O amigo pensa assim porque pensa como eles querem que pense. Ah, acredite em mim! Eu conheço-os a todos, e conheço-os bem. Sei o que são. A fundo. E fique sabendo que deu de lucro 39 milhões de euros! Tudo isto ganho graças a quê? Ao sofrimento do povo, que fica sem hospitais nem tratamentos para os glutões engordarem com os lucros.
Nem me dei ao trabalho de responder.
Mas, sabe – prosseguia o homem –, eu até gosto que haja estas injustiças e desgraças.
- Ora, para quê?
- Oh, o meu amigo desconhece os fundamentos profundos da vida. Eu não. Eu sei. Eu sei o que está por debaixo de tudo isto.
E, depois de respirar funda e ruidosamente:
- Quer saber o que é?
Estava já pronto para responder “claro!” (mas sem saber se o devia fazer, pois não estava disposto a perder tempos infindos numa discussão estéril numa altura em que tinha pressa no regresso a casa) quando o telemóvel tocou. Durante os segundos breves consumidos pela conversa, o meu interlocutor limitou-se a conduzir. Mas, mal parei, tornou ao mesmo ponto:
- Quer ou não?
- Bom, agora deixou-me curioso. Explique lá.
Então, o motorista do táxi deixou pender a cabeça sobre o peito, inspirou uma vez mais e disparou, num tom francamente mais baixo:
- Regeneração eucarística para a vida.
- Desculpe?! – perguntei, apanhado de surpresa.
O que o levou a repetir, agora de forma bem mais audível:
- Regeneração eucarística para a vida!
- Olhe, fiquei na mesma sem perceber nada.
O homem olhou-me então com uma ponta de desdém pelo pobre mortal que nada compreendia de realidades cósmico-transcendentes. E depois, cheio de superioridade:
- Regeneração eucarística para a vida! Aposto que o meu amigo não sabe o que são os Vedas.
- Por acaso até sei. São…
Mas ele atalhou sem dar provas de piedade:
- Aposto que o meu amigo, mesmo que saiba o que são, nunca leu os Vedas.
- Isso não..,
- Eu li, os quatro livros dos Vedas. Mais do que uma vez. Li-os todos. Desde há muitos anos. E releio-os sempre.
E, prosseguindo no seu delírio:
- É por isso, por saber tudo e por ter lido e aprendido tudo o que é explicado nos Vedas, que sou taxista. Tenho de arranjar uma profissão louca, que quase me mate de stress. Uma profissão que me obrigue a ir procurar ajuda nos Vedas. O stress faz-me procurar os Vedas, e ser taxista é a profissão que mais stress me causa. É por isso que conheço tão bem os Vedas. E sei o que é a regeneração eucarística para a vida.

Já a lamentar a triste sorte que me tinha calhado ao apanhar o táxi de semelhante tolinho, eu apenas respondia:
- Olhe, estamos quase. Se calhar fico já ali, a seguir à paragem.
- O amigo é apressado, é filho do tempo de hoje. Por isso não leu os Vedas.
- Pois não, mas quando tiver oportunidade eu leio.
- Não basta isso. Há mais que fazer do que ler os Vedas. E a mensagem…
- Qual mensagem? A regeneração eucarística para a vida?
- Isso! A mensagem está contida nos ensinamentos de muitos povos.
- Ah, que bom.
- Povos como os fenícios! Sabe quem foram os fenícios?
- Sei, sim.
- O amigo sabe lá quem foram os fenícios! Os fenícios acreditavam na regeneração eucarística para a vida. Está tudo nos escritos deles.
- Ok, de acordo. Quando tiver oportunidade, leio esses escritos. Depois dos Vedas.
- Ah, amigo! – concluiu ele – O amigo é um homem da nossa época. Nunca terá tempo para os ler. Nunca quererá saber. Pouco ou nada lhe interessa a regeneração eucarística para a vida.
- Pois, está bem. Ah, chegamos. Diga-me lá quando é.
O homem recebeu a nota, agradeceu a gorjeta, devolveu o troco. Mas ao fazê-lo, não resistiu:
- Não se esqueça dos fenícios…

Nem da regeneração eucarística para a vida!!! Tive vontade de acrescentar. Mas, há que confessar, acobardei-me!


Tuesday, May 02, 2017

Excelente ao nível da excelência


- Eh pá, puto, foi brutal. Foi mesmo incrível. Aquilo agora está excelente ao nível da excelência.

- Ya.

- Viste o último?

- Ya. Não. Emprestas-me cinquenta paus?

- Náa, puto, depois nunca mos devolves. Mas tens de ver. Tipo o miúdo, que agora já é um gajo, quando era miúdo entregou os pais. Foi super-mega-nojento.

- Ya.

- Ele foi mesmo um ******** de *** ao delatar os pais. Mas que cena, pá, nem imaginas! Consegues imaginar?

- Ya.

- Pois, tu não viste, não consegues. Mas tens de ver, puto, tens mesmo de ver…

- Ya. Passa-me um croissant. Não desses! Dos que só têm fiambre. Ya, esse mesmo, puto, o maior.

- Quanto maiores mais secos, puto, é o que diz a minha mãe. Mas tu é que sabes.

- Ya.

- Continuando. Vamos pôr tudo isto num mega plano tipo nazis, ‘tás a ver?

- Ya.

[Eu confesso que não estava, mas isso de pouco interessava: a interpelação não me era dirigida.]

- Então era tipo uma cena tipo em que os pais ensinavam os filhos desde pequenos a combater os outros gajos, que eram tipo nazis e os pais dos putos (e os putos também, claro) eram tipo judeus.

- Ya.

E havia um puto tipo que era muito mais esperto do que todos os outros tipo assim um génio, e os pais apostavam tudo nele. Mas não só os pais dele: os dos outros putos também. Ele era assim tipo o puto redentor.

- Ya.

- Mas o incrível é que o puto era super-mega-cérebro e topou tudo e passou-se para o lado dos inimigos. Foi super nojento, partia-lhe os ossos todos se fosse o meu puto, mas foi tipo mesmo muito esperto em fazê-lo como fez. Tipo ele deu a volta à cabeça de todos e fez-se passar pelo futuro gajo que ia derrotar os inimigos, mas acabou por lhes entregar os pais e tipo toda a gente dele. Deu-lhes todos os gajos bons que estavam contra os nazis. Não eram nazis, claro, estás a perceber, certo? Não são daquela altura nem tinham fardas nazis. Mas eram tipo do género, ok? Assim nazi sem ser mesmo nazi.

- Ya.

- É que tipo o puto percebeu que o lado dos pais e dos oprimidos não ia vencer nunca. E vendeu-os para tipo passar para o lado dos poderosos. Acho mesmo que era um génio, um génio assim asqueroso, mas génio, pronto. Mas vendeu os pais… Puto, isso não se faz.

- Ya.

- Não se faz. Mesmo se fores um génio e te quiseres passar para os nazis.

- Ya.

- É isso mesmo, puto.

Nota final: o que eu aprendo na fila de espera do bar!


 

Wednesday, January 25, 2017

Bodo aos pobres



Hoje, corrigido o molho de exames de recurso que me esperava sobre a secretária – e em jeito de recompensa pelo trabalho despachado e (até) pelas relativamente boas notas dadas – decidi ir tomar café a um centro comercial em Celas que frequento apenas esporadicamente. Isto com o propósito paralelo de passear uma meia hora pelos corredores em busca de alguma promoção interessante.
Uma vez tratada a parte mais importante (o café, obviamente) lá me predispus a percorrer aquelas galerias bastante vazias e cada vez mais minadas pela gangrena de qualquer espaço comercial deste género – as lojecas de costureiras, em regra prenúncio de negra ruína. Palmilhei corredores, subi e desci escadas, inspecionei montras, mas nada encontrei que me tentasse minimamente. Até – aha! – me deparar com um tabuleiro numa vitrina isolada que me pareceu interessante. Alojaram-no na parte menos destacada do expositor, mas chamou-me logo a atenção. Latino como sou, gosto de (i) cores fortes e (ii) de citrinos. Ora, a bandeja tinha uma grossa banda azul intenso contornando um fundo amarelo sobre o qual se desenhavam, num estilo muito “pop” e 60’s a que achei graça, laranjas e limões em vias de se transformar em sumo. Para um amante do colorido que bebe litradas de sumo de laranja e uns bons jarros de limonada por semana, a peça fazia sentido.
Curioso em saber o preço do tabuleiro, comecei à procura da loja correspondente àquela vitrina. Por mera exclusão de partes, concluí que seria um enorme espaço do outro lado do corredor, no qual se vendiam o que me pareciam ser horríveis peças de artesanato. Tentei a minha sorte.
Dentro de portas, encontrei apenas duas pessoas, ambas sessentonas: empoleirada num escadote, a proprietária passava a uma velocidade impressionante esculturas bastante feias a uma senhora enrolada num sobretudo cor-de-camelo.
- Eu juro, juro por Deus – asseverava – que não tenho peças mais nenhumas. Só estas. Duas grandes, e as pequenas. Haveria uma outra, mas já a vendi, creio bem tê-la já vendido…
- Ai, que pena – respondia a outra, numa voz afetada – eu adoro o trabalho dela.
- Já se sabe – explicava a vendedora – que quando o artesão deixa a atividade tudo encarece. E todos começam a procurar as peças. Eu juro, juro por Deus que estou a dizer a verdade.
A outra assentia enquanto mirava os barros hediondos.
- Agora fica um pouco mais caro. É raro, já não há outras.
- Pois, compreendo.
- Foi o mesmo que sucedeu com a D. Luísa da Conceição.
- Ah, eu adooooro Luísa da Conceição! – retorquia a potencial compradora, de olhos em alvo – Tenho dezenas de peças dela.
- Raríssimas, desde que deixou.
E logo, cheia de sabedoria comercial:
- É como as do António Jorge.
A outra reagiu como pretendido.
- Quem é? Não conheço!
- Ahh, um graaande artesão.
- Não tenho nada dele, não o vi em nenhuma feira.
- É natural. O António Jorge é novo, um estreante. Mas virá a ser tão grande como a D. Luísa da Conceição. Quer ver obras dele? – explicava, enquanto as despejava sobre a mesa, sob a mirada ávida da senhora de sobretudo.
Eu neste momento já tinha passado por vários estados de espírito. Resignada paciência por ver que havia alguém a atender antes de mim; indignado aborrecimento ao constatar que não me ligavam nenhuma; genuína estupefação ao descobrir um amplíssimo panteão de artesãos para mim absolutamente desconhecidos (e, vá lá, irrelevantes), cujas obras são disputadas a preços escandalosos por sessentonas de vozes anasaladas.
Deixando a “cliente rica” perder-se entre as maravilhas saídas das mãos de António Jorge, a vendedora lá se dignou a reservar uma fração do seu tempo ao “cliente pobre” – como de imediato me senti rotulado. Simpática, confirmou ser a dona da vitrina. E quando lhe perguntei o preço dos tabuleiros, respondeu-me entre sorrisos rescendendo a condescendência:
- Baratíssimos! Qualquer um pode comprar.
Confesso que estranhei, mas, como sou agarrado ao dinheiro, nem desgostei do que ouvi. “Barato e giro é ótimo!”, pensei para comigo mesmo.
Transposto o corredor, aberta a vitrina, a senhora lá tentou convencer o “pobre” a largar mais uns cêntimos. Para quê aquele tabuleiro, no fundo da montra? Não havia lá tantos outros, tão ou mais bonitos, sem aquela garridice de cores, antes com “lindíssimos ramos de oliveira (azeitonas incluídas) e alfazema”, num verde tropa e azulinho encantadores? E se gostava de cores vibrantes, que tal o das riscas – tão mais adequado a qualquer situação.
No entanto, perante a minha casmurra obstinação – o “pop” ou nenhum! – lá transigiu.
Entretanto, novamente na loja, reparei num conjunto de louça pedante e bastante grosseira (a lembrar a faiança do Rato e do Juncal, de que nunca gostei particularmente) mas que reunia duas qualidades: era azul e chamava-se “Costa Nova”. Com direito a um logotipo com palheiros e tudo.
- É lá fabricada, disse a senhora. Em Vagos.
Bom, Vagos não é Costa Nova, mas enfim…
Apontei para um grande bule, que me pareceu adequado precisamente devido às suas dimensões.
- E qual é o preço daquele?
A vendedora olhou-me com um misto de repreensão e pena:
- Ah, é caro.
- Mas quanto é?
- Digo-lhe já. Para si caro. Tanto que vendo só o conjunto.
Eu já começava a ferver. É certo que estou a milhas de ser rico, é verdade que sou agarrado ao dinheiro, era muito provável que jamais comprasse a porcaria do bule… mas a senhora deveria mostrar outra diplomacia!
- Ok, vou então pagar o tabuleiro. Aceita multibanco?
- Sim, mas… – A vendedora suspendeu a explicação por um momento, como para anunciar algo de maravilhoso. – Se me pagar em dinheiro faço-lhe um abatimento de… 10%!
Sentia-me cada vez mais parvo. Por um lado, tinha vontade de lhe dizer “afinal, levo quinze tabuleiros e pago TUDO com cartão”. Por outro, ganas de a ridicularizar começando a bater palmas de alegria, como um pobrezinho muito bem comportadinho a quem dão uma esmolazinha e, entre lagrimazinhas, agradecer o patrocínio da minha excelsa interlocutora. Mas a sovinice inata voltou a dominar-me e não resisti ao pagamento em “cash”.
- É para embrulhar? – perguntou finalmente a senhora.
Estarrecido (“Mas a quem é que iria dar um tabuleiro?”, pensei), expliquei rapidamente:
- Ah, não, é para consumo próprio. Compro-o para mim mesmo.
A minha interlocutora – que lá no fundo estava certa de ser uma alma santa pairando neste ermo de perdição – olhou-me com simpatia e, numa voz de caridosa resignação (“são pobres e têm manias”, imaginei que ela magicasse para consigo mesma), rematou:
- Faz tão bem. Um miminho para nós é sempre bom.
Deixei a loja aturdido. Mas a acreditar numa coisa. Que aquela tonta está convencida de que praticou uma quase obra de caridade.
Gosto mesmo do meu tabuleiro novo! Quando acabar de beber o meu chá na chávena de laca preta e comer o bolinho de coco que agoniza no prato Satsuma, ponho a raquete aos ombros e vou para o ténis. Se a senhora porventura me vir na rua, o que pensará? Que roubei a raquete? Ou que sou o carregador de alguém mais afortunado? Ou que um homem generoso deu o seu equipamento velho a um triste que ansiava por pisar um court?




Wednesday, December 14, 2016

Os filhos que por aí tenho esquecidos...


Há já uns bons anos, quando andava na faculdade (celebrámos no mês passado uma vintena sobre a primeira matrícula, pelo que passou efetivamente muito tempo), era regularmente confundido com alguém que, tendo a ousadia de ser demasiado parecido comigo, cometia o pecadilho ainda maior de cirandar por lugares onde eu dificilmente estaria. E que assim de vez em quando me conduzia a situações difíceis.

Esse outro-eu, por exemplo, andava regularmente de autocarro (eu só recorro a transportes públicos in extremis, pois geralmente vou a pé a todo o lado) e pouco polidamente não cumprimentava os meus conhecidos que lhe acenavam… os quais na ausência de réplica por vezes amuavam ou pelo menos resmungavam comigo quando me (re)encontravam. Ou saía à noite para bandas diferentes das que eu apreciava. A ponto de um dia uma funcionária da faculdade exclamar:

- Então não me diz nada??

- Eu? – retorqui espantado – Ah! Desculpe. Com certeza… Bom dia, como está? Que bom não ter chovido nestes últimos dias, não é?

Para ouvir uma réplica desarmante:

- Pois, agora fala assim, quando fala. Mas à noite, quando vai para a gandaia da rua da Matemática já está muito mais palrador.

Até tenho fama de responder depressa e certeiramente. Mas desta feita vacilei. Só me apetecia explicar que não frequentava a rua da Matemática e jamais iria a um lugar onde se usasse a expressão gandaia (talvez seja snobeira – é provavelmente snobeira –, mas paciência). E de acrescentar: isso foi o outro, aquele palerma que de vez em quando me usurpa a identidade e a enxovalha antes de ma restituir.

Mas se enveredasse por tal caminho pareceria maluquinho. E, ontem como agora, estou plenamente convencido de que é mil vezes preferível ir no mais decrépito autocarro para a gandaia na mais deprimente das repúblicas do que dar ares de tontinho com distúrbios de personalidade!

Enfim, os anos passaram e as gandaias, na opinião da maioria que acha que já devo deixar-me de parvoíces, assentar e comprar uma carrinha (Deus me livre!), devem obrigatoriamente pertencer ao passado. Entretanto, o meu sósia parece ter-se esfumado. Pelo menos não tem dado sinais de vida. Desejo-lhe coisas pouco agradáveis: que tenha engordado bizarramente ou ficado careca, para deixarem de o confundir comigo, que mantenho o meu cabelo orgulhosamente basto e espetado.

No entanto, esse outro-eu tem vindo a ser paulatinamente substituído pelo que podemos chamar minis-eu. Isto é, por pretensos filhos que tenho e aparentemente espalho por vários pontos do país votando-os à ilegitimidade, ou pelo menos a uma sobranceria desdenhosa. As pobres crianças terão apenas a magra compensação de surgirem em lugares onde sou conhecido para exibirem publicamente as suas semelhanças com o progenitor cruel que as ignora.

O primeiro sinal de alarme soou em Lisboa, na estremecidíssima Sociedade de Geografia, onde me sinto tão à-vontade que costumo dizer ser a minha segunda casa na capital. Um belo dia, no bar, enquanto conversava com uma das senhoras que serve o café, veio à baila a passagem, pouco tempo antes, do meu “filho” pelo bar/sala de estar. Um “menino muito vivo e muito simpático” que “era mesmo a sua [minha, portanto] cara”!

- Mas eu não tenho filho nenhum! – exclamei.

- Ah, mas era tal e qual! Deve ser sobrinho. Nós fomos todas vê-lo. Era o senhor em miniatura.

- O único problema é que também não tenho sobrinhos rapazes.

- Olhe, então não sei. Mas têm de pertencer à mesma família!

E foi neste momento que pensei: será que o outro-eu se anda a reproduzir e a produzir mini-clones seus – e consequentemente também meus?

O problema tem aparentemente tendência a agravar-se. Há literalmente um par de dias, estava eu na cantina a tentar servir sopa com o “Público” debaixo do braço sem deixar cair nada (uma tarefa que exige máxima concentração e uma boa dose de coordenação) quando ouço da mesa que se achava nas minhas costas, onde as funcionárias gostam de se juntar para almoçarem:

- Professor, podemos fazer-lhe uma pergunta?

- Sim, sim, claro. Mas deixem-me acabar isto, para me virar. Não é muito urgente, pois não?

- Ah, não! – dizia outra – Já andamos há uns tempos para lha fazer.

(O que diabo será? Pensei eu, entre receios de salpicos de feijão-verde e a busca de uma colher).

- Ok, estou pronto – disse, já de tabuleiro completo e em riste.

- O professor tem um filho, não tem?

- Eu??

- Sim, esteve no infantário. Agora talvez já ande no primeiro ano.

- Ah, não, não sou eu. Eu não tenho filhos.

- Oh professor, não pode ser! Aquele miúdo é igualzinho ao professor. Em tudo. No aspeto físico e até na maneira de ser.

- Pois, mas não sou pai dele.

- Professor, tem de ser pelo menos seu sobrinho!

Uf! Outra vez a lengalenga!

- Não é possível; não tenho sobrinhos rapazes.

- Ai, professor. Isso é tão estranho! Tem mesmo de ver o miúdo. Vai ficar impressionado.

Enquanto procurava com um sorriso amável fechar de vez a questão, remoía para mim mesmo: outro-eu, se isto for mais uma gracinha das tuas, um dia destes levas um murro! Estejas ou não acompanhado por esses filhos com que pareces andar a povoar o país.

Tuesday, November 29, 2016

Indo eu, indo eu… ou instantes da vida real


 - Ai, Deus, estou mesmo louca para ir para Chaves! – suspirava uma aluna imobilizada na fila que se eternizava no bar, rumo à caixa registadora, enquanto brandia furiosa e perigosamente a sua sandes de ovo cozido.

- Quanto tempo demoras na viagem? – perguntava a colega.

- Umas seis horas… e vou pelo caminho bom! Se não for por Coimbra, perco meia hora com a troca de camionetas.

- Mas o que é que tu fazes durante o caminho?

- O que é que eu faço?

- Sim! Dormes?

- Eu posso lá dormir! Eu vou louca por ir para Chaves! Penso lá em dormir! Só em ir para Chaves!

- Mas se não fizeres nada o tempo demora mais a passar.

- Ora, o que hei-de eu fazer?

- Sei lá… Se não queres dormir, podes ler.

A resposta veio acompanhada por um olhar de genuíno espanto:

- Ler?? Ler!! Mas quem é que lê? E para que é que eu vou ler? E ler o quê?

- Um livro, uma revista…

- Ora, balelas; isso ouve-se tudo na tv.

Logo acrescentando:

- E não há cabeça para isso quando se vai para Chaves!

- Podes ouvir música…

- Ah, nem me fales nisso!! Eu estou morta, morta por dentro! O meu MP4 avariou-se! Morta, estou morta e bem morta!

- Acho que o teu MP4 é que morreu, não tu…

- Ai sim? Então e diz-me lá como é que vou para Chaves sem o MP4??

De repente, surge uma lembrança.

- Eu tenho é de levar comida! Sempre que vou para Chaves janto na camioneta.

- Pode-se jantar a bordo?? Julgava que era super-proibido.

- Isso foi porque nunca foste a Chaves. Eu janto sempre! Ai, e o que vou eu levar?

- Vai ao Pingo Doce e compra pão e atum e fazes uma sandes.

Desta feita, a réplica veio envolta num tom de ira:

- Pão com atum? E ainda por cima tenho de ser eu a preparar isso? Não tenho tempo. E a caminho de Chaves? Isso é lá jantar!

E, ato imediato:

- Já sei! Vou é levar um especial [ie, hambúrguer especial, recheado com batata frita palha e doses generosas de ketchup e maionese, bastante gordurento]!

- Mas olha que é muito arriscado. O condutor não vai deixar.

- O condutor nem nota! Eu vou lá para o fundo e não faço barulho.

- Mas vai sentir o cheiro. E podes sem querer sujar o estofo do teu lugar com os molhos.

- Não quero saber!

- Não??

- Claro que não: não sou eu quem limpa! Sujei, que limpem! Pois não paguei bilhete? E eu nessa altura já estou em Chaves… Ahhhh, quando chegar a Chaves e vir a minha mãe…

- Deves estar cheia de saudades dos teus pais.

- A mim o que mais me lembra agora é o bife que a minha mãe me vai fazer mal chegue! Um bife grande, enorme! De carne de Chaves.

- Mas tu consegues comer assim um bife a meio da noite, depois de seis horas de camioneta?

- Então não? E antes, no ano passado, quando era caloira, também iam uns dois ou três pasteizinhos quentinhos.

- É uma sobremesa de lá?

- Náaa, em Chaves é tudo dado aos salgados. São folhados e têm carne picada.

- E tu comias o bife E esses pastéis? – espantava-se a outra.

- Pois claro!

- Depois dizes que estás gorda… E estás mesmo.

- Não estou nada! Eu sou é grande! De qualquer forma, agora é só mesmo o bife. Aiiii, esta fila não anda… Olha, que lindas merendinhas! Podia levar duas, amanhã, para ir desenfastiando a caminho de Chaves!

- Eu, se fosse tanto tempo na camioneta, e a comer tudo isso, não chegava lá viva.

- Ora, tu não sabes mas é o que é bom…

E logo:

- Quem será o motorista?

- Costuma variar muito?

- Ná, é um de dois. Um vai o tempo todo a ouvir o futebol, o outro passa a viagem a ouvir missa.

- Durante seis horas?!? Qualquer um desses cenários parece horrível.

- Não é nada! Vale a pena! É assim quando se vai para Chaves!
 
 

Monday, October 17, 2016

Os restos do festim


Por motivos de ordem profissional, todas as segundas feiras tenho de me levantar e sair bem cedo de casa. Isto é, às 6.30h já estou a dar os primeiros passos na noite húmida de outono.

Costumo seguir invariavelmente o mesmo percurso, que me leva cerca de 45 minutos a pé desde a porta da Teófilo até à entrada do terminal de autocarros, onde, entre magotes de gente atafulhada de malas rumo ao aeroporto, os turistas asiáticos que enxameiam e os dois ou três drogados decadentes da praxe, entro no autocarro que me trará a Leiria city e às aulas – enquanto durmo gostosamente mais uma hora sobre rodas.

Não se julgue porém que tais périplos me são penosos. Antes pelo contrário. Malgrado a morrinha irritante e os ainda mais aborrecidos dois cães vadios que dormem sob o viaduto, gosto tanto da aurora e do romper do sol quanto detesto o lusco-fusco crepuscular. E é bem sabida dos que me rodeiam a antipatia profunda que voto aos finais de tarde, nos quais tantos encontram encantos românticos enquanto eu só me deparo com uma espécie de cegueira parcial. É um prazer avançar vendo a noite ceder e levar com ela o que tem de menos simpático – ruas demasiado escuras por incúria municipal (felizmente entretanto corrigida, com o ajuste do desligar automático da iluminação pública), criaturas por vezes quase fantásticas que creio jamais verem a luz do sol (e não falo de animais), os bêbados inveterados… Sendo que, quando se conhece bem e se gosta da cidade, nenhum destes óbices se agiganta em obstáculo intransponível. Em paralelo, acho graça aos trabalhadores que chegam, aos cafés que vão abrindo, aos alunos marchando resolutos para as primeiras aulas da semana, aos esparsos autocarros que cruzam as ruas, destacando-se quase excessivamente luminosos num horizonte ainda muito tenebroso, aos pássaros e demais bicharada anunciando a alvorada.

Ocasionalmente – felizmente, pois a monotonia cansa – esta rotina é quebrada por algum acontecimento excecional. Foi o caso de hoje, madrugada seguinte à Latada. O sono dos cães vadios foi perturbado pelos estudantes bêbados que se arrastavam pelas ruas – mas isso não é novidade (e até encontrei menos gente nesse estado do que esperava); os transportes municipalizados triplicaram – o que sempre sucede; partes da cidade estavam menos limpas do que é habitual – como não podia deixar de acontecer.

A grande surpresa estava reservada mais ou menos a meio da jornada, em plena Portagem.

Aí, estendendo-se ao longo de toda a fachada do Banco de Portugal e do BPI, estacionava uma enormíssima frota de carrinhos de supermercado. Perfeitamente ordenados, alinhados, arrumados por uns três ou quatro homens diligentes e madrugadores.

É fácil calcular o quanto me impressionou aquele mar tão impecavelmente composto de ondas de carrinhos vazios, encaixados uns nos outros, quase como numa cave de qualquer grande superfície. É ainda mais fácil perceber de onde tinham vindo: eram o resultado da triste tendência que agora impera na festa das latas. As novas gerações de caloiros, demasiado refinadas para transportar consigo as cervejas que vão consumindo ao longo do desfile, preferem roubar carrinhos aos supermercados da cidade, certamente confiando na prosperidade deste nosso país, que aparentemente lhes fornecerá meios e criadagem ilimitados para satisfação dos seus caprichos vida fora. No fundo, uma má réplica do roubo dos nabos – com uma “ligeiríssima” diferença de valores.

Como é evidente, não resisti a dar uma palavrinha a um dos arrumadores-de-carrinhos-de-supermercado-na-Portagem.

- De onde vem tudo isto?

- Ah, é tudo do Continente.

- Só do Continente?

- Sim, e isto é metade do que recolhemos. O resto já foi metido em carrinhas e levado de volta.

- Não percebo nada. Vocês emprestam os carrinhos, para evitar que vos roubem, e depois recolhem-nos aqui, em plena Portagem?

O meu interlocutor olhou-me com ar trocista.

- Qual quê? Eles são todos roubados! Estes foram os que nós conseguimos recuperar das mãos dos estudantes, no final da noite.

- Os senhores andam atrás deles por causa dos carrinhos?

- Depende. Uns recolhemos. Muitos reavemos mesmo.

- Mas isso é uma coisa inacreditável! Devem ter demorado horas a recolher tudo isto (e a aturar os estudantes bêbados, pensei eu, mas omitindo essa parte)!

- Pior seria o prejuízo que teríamos!

E abrangendo com um gesto de braço o magote que se encontrava ao seu lado:

- Já viu quanto dinheiro está aqui empatado?

- Mas como é que permitem que roubem tudo isto nas vossas barbas? É quase difícil de acreditar…

- Oh, isto de gatunos é assim: cada ano mais sabidos, cada Latada mais descarados.

Nesta altura, já estava verdadeiramente pasmado – e não era por causa do enorme parque de estacionamento ali improvisado, sob a mirada crítica do mata-frades. Pasmado a pensar no caricato da situação: empregados do Continente (e quem sabe outras grandes superfícies recorrem à mesma solução) perseguindo carrinhos noite fora, reavendo carrinhos, reunindo carrinhos. Com uma diligência de formigas enquanto as cigarras folgam. Largas dezenas de carrinhos, depois bizarramente dispostos em ordem à entrada histórica da cidade e que entretanto retomarão funções. Pasmado com a falta de respeito nascida do egoísmo de estudantes que, para não massacrarem as suas mãozinhas delicadas a carregar um saco com cervejas, preferem não só roubar propriedade alheia como também, consequentemente, obrigar estes desgraçados operários a trabalhar madrugada fora em tarefas estúpidas, inglórias e certamente muito cansativas.

Acabei por pedir:

- Posso tirar uma foto? É para mostrar ao meu Pai. Ele está na assembleia municipal e preocupa-se verdadeiramente com estas coisas da cidade.

- Sem problema, tire-a lá.

Tirei. Não ficou nada de especial, mas penso que basta. Pai: aqui está.

Dá sempre gosto ver atitudes tão igualitárias e atentas à dignidade dos trabalhadores num país aparentemente imerso em preocupações com os menos favorecidos. A parra compõe qualquer fruteira elegante. Mas mais importante do que a fruteira de porcelana ou as folhas verdejantes são as uvas que albergam. E estas continuam a ser bem escassas. Demasiado escassas.
 

Wednesday, July 13, 2016

Às portas do ensino superior

Numa esplanada conimbricense, durante a manhã de hoje, duas amigas tomam café enquanto conversam por telefone com um colega. Acabam de saber que saíram as notas. Para mal dos meus pecados – e de todos os que genuinamente gostam e trabalham nesta área –, são claramente de humanidades.
- Puto, puto, vê lá quanto tive. A história e a português.
(resposta)
- 11 a história e 12 a português… Obrigada puto!
- Tiveste boas notas! – dizia a amiga (enquanto eu deixava cair o queixo pensando exatamente o contrário) – Pede para ver as minhas!
- Puto, vê as da Inês [nome ficcional].
E voltando-se para a outra:
- Tiveste 10 e 8.
- Ai, estive mal.
- Não estiveste nada!! Dá para entrar, é o que interessa!
- Pede para ele ver quem teve melhor nota.
- Puto, checka lá a melhor nota a história.
(resposta)
- Foi o Luís [este nome optei por manter! LOL]! Não posso crer! Quanto é que ele teve?
(resposta)
- Catorze! O Luís teve catorze! É incrível! Como é que consegue?
- Ele é tão inteligente!! – acrescentava a outra, pondo os olhos em alvo (enquanto eu pensava: mas que bando de burros é este?)
De repente, a rapariga do 8 lembrou-se:
- Pede-lhe para ver a nota da Helena [nome não ficcional].
- Puto, vê a da Helena.
(resposta)
- A sério? Se calhar faltou. Mas eu lembro-me de a ver lá…
Dirige-se então à amiga:
- Diz que a Helena não aparece.
- Que estranho! Eu tenho a certeza que ela foi.
- Que queres? Ele não encontra o nome…
- Mas será que ele viu bem? Olha que Helena é com “h” (eu já tinha vontade de fugir, não fosse o café que aí vinha e a perna em recuperação que precisava de permanecer esticada mais uns minutos).
- Ah, é verdade! Puto, puto, não te esqueças que o nome dela se escreve com “h”. Isso, pois… Não, não é com “e”. Temos a certeza. Vê lá…
(resposta)
- Ah, teve também 14. O mesmo que o Luís. Pois, já se calculava. Puto, e tu? Quanto tiveste?
(resposta)
- Ora, puto. Passaste, é o que é preciso!
E pondo um ar escandalizado:
- O quê? Tu vais ou quê?? Tu és doido, puto! Repetir exames? Olha que me disseram que a segunda chamada é muito mais difícil. E que não podes concorrer agora se fores fazer os exames de segunda chamada.
(resposta)
- Quem me disse? Sei lá, já não me lembro… Não, não foi na televisão. Puto, isso não interessa. Tens é de te deixar dessas ideias! Segunda chamada? Para quê? Vive a vida!
(resposta)
- Puto, tu é que sabes. Olha, diz-me, e como é que é agora? Tenho de entregar os papéis onde?
(resposta)
- Ah, é só até dia 20?... Sim, na escola? Boa, puto, obrigada. Sim, vou lá mesmo no dia 20. Ná, não há mal ir no último dia, antes é que parecia iria parecer uma desesperada, puto. Bom, puto, fica bem.
Depois de desligar, dedica toda a atenção à amiga, ainda a digerir as classificações magníficas que obtivera.
- Não preocupes! Vais entrar!
- Mas entrar em quê? Com a minha média… não dá para nada do que queria!
- Ora, o que conta é entrar. Depois é divertir-te com as praxes! Eles fazem coisas horríveis às caloiras (aduz com ar entusiasmado).
A companheira solta risadinhas e gritinhos.
- A sérioooooooooooooo??!! Ai, que loucura! Mas ainda não sei a que concorrer…
- Deixa-te disso! Concorres a qualquer coisa. Sei lá, turismo!
- Mas eu não sei nada de turismo. Nem sei se gosto…
- O que interessa é entrar. Depois, seja o que for!
Casquinada da amiga, já animada.
- Pois é! Tens mesmo razão.

NOTA FINAL: se daqui a uns anos estas meninas vierem manifestar-se para a rua e captarem a atenção dos meios de comunicação social acusando o Estado e todos nós de lhes “desfazermos os sonhos e a vida” e de as “obrigarmos a emigrar” como sucedeu com os “cérebros” da nação, deveremos sentir muita solidariedade para com a sua causa? Eu confesso hesitar.