Monday, March 11, 2013

ORGANISMO LUSO-TROPICAL


Hoje assisti ao nascer do dia através da minha janela de carepas em pleno bairro das Fontainhas. Entre as seis e as seis e meia (altura em que as badaladas solenes da vizinha capela de S. Sebastião ferem o ar e declaram oficialmente aberto o dia, nesta pequena parcela Goa que é maioritariamente católica e onde muitos sabem falar português), os trinados dos pássaros foram-se tornando mais audíveis (há um de que gosto particularmente – e já nem me recordava disto! – pois sempre que termina qualquer dos seus longos gorjeios termina com outro, muitíssimo mais breve, que me soa, incompreensivelmente, como um thank you um pouco mecanizado!), começou a ouvir-se passar uma ou outra bicicleta, mais além um carro qualquer buzinando loucamente, como é hábito local. À medida que, entre as carepas da minha janela, o céu ia adquirindo um transitório mas magnífico (sobretudo no contraste com o verde das árvores fronteiras) tom de azul forte, os sons quotidianos tornam-se progressivamente percetíveis: senhoras varrendo a rua fronteira, os vizinhos da frente a saírem para trabalhar, dois amigos que trocam breves palavras à esquina.
A noite foi curta, pois acabei por dormir menos do que queria. Cheguei ontem a Goa, após uma viagem inevitavelmente demorada e cansativa, sentindo-me um pouco apreensivo: como reagiria a este (ainda que breve, de pouco mais de duas semanas) regresso? Apesar de pensar em Goa mais de 1/3 dos meus dias, já cá não tornava desde 2008, altura em que vivi nestas paragens três meses e meio recheados de momentos excelentes a par de fases difíceis e de bastante angústia: os primeiros, contudo, tinham suplantado largamente as segundas, e fiquei a gostar genuinamente destas paragens e gentes. Mas… e agora? Quando, por fim, o avião começou a investir rumo a Dabolim, foi inevitável lembrar-me do choque que senti no meu primeiro contacto com uma terra que ingenuamente imaginava bordejada de coqueiros e repleta de casarões senhoriais (locupletados, por sua vez, de cristos indo-portugueses e contadores carregados de porcelanas da China) alternados com igrejas. E com mar e rios por todo o lado. Como vim a perceber, algumas destas realidades existem efetivamente… no entanto, digamos assim, não da forma que eu imaginava. Estava eu, deste modo, a braços com uma pontinha de apreensão quando, ao pôr o pé em Dabolim, me senti – talvez incongruentemente, talvez por desespero, talvez porque tenha mesmo ficado refém de alguma forma dos fumos desta Índia – absolutamente confortável, como que entrando em casa há muito conhecida. E assim prossegui rumo ao táxi (excelente, a ideia dos pre-paid!), ao longo do percurso que nos separava de Pangim – o qual continua, com escassos relances de paisagem ainda belos, entre os quais a ilha de S. Jacinto, feioso, desordenado e bastante sujo –, reconhecendo paragens e, também, os cheiros e o magnífico calor desta terra. Nos Afonsos, fui otimamente recebido – graças aos bons ofícios do infatigável Delfim, cujo dinamismo torna a vida dos portugueses que gostam e desejam vir a Goa muito mais branda – pela Jeanette (a qual, lembrando-se de mim quando estava mais gordo, não me reconheceu à primeira) e apreciei logo de imediato o quarto amplo, espaçoso e limpo (com wc e, para minhas delícias, janela de carepas), agora com uma novidade: ar condicionado. Pressurosa, a Jeanette logo o ligou e explicou-me o funcionamento da máquina, e lá ficou a dita funcionando, enquanto eu desemalava o que viera de Portugal. Vai ser excelente à noite!, pensei.
Pois bem… não foi! E porquê? Abra-se, antes de prosseguirmos, um breve parêntesis, para frisar que eu ADORO calor. Mais do que aquelas pessoas que dizem, de forma um tanto anódina, preferir o calor ao frio, eu – e, aí, a par da minha mana, seguimos fielmente o nosso Pai, que é do mesmo modelo – vivo mesmo muito bem com calor. Melhor dizendo: eu vivo sobretudo bem com temperaturas altas. Trabalho melhor, sinto-me mais bem-disposto, vejo o mundo em tons risonhos, e não tenho, em regra, especiais dificuldades em concentrar-me ou em descansar (talvez seja em virtude deste comportamento meridional – e aí já sem ser acompanhado por aqueles meus parentes – o gostar tanto de acordar cedo e da alvorada, e o achar muito agradável, sempre que possível, fazer uma meia hora de sesta depois do almoço). Como, aliás, poderíamos nós sobreviver em Coimbra – ou, pelo menos na Coimbra de outrora, onde os Verões abrasavam? Em compensação, nunca me dei muito bem com ar-condicionado. Faz-me um bocado de dor de cabeça, entope-me o nariz, fico com frio… uma seca, que talvez (quem sabe?) se deva ao facto de eu jamais ter tido grande contacto com ambientes refrigerados desta forma.
Pois bem… deitei-me com o ar condicionado ligado, estranhando o ter de dormir (foi a primeira, e creio que última, vez) em Goa com um lençol e um cobertor (!!). Estava, porém, de tal forma cansado que me virei para o lado e assim fiquei, como uma pedra. Mas uma “pedra Cabral” – dessas que tem os genes do meu Pai – não resiste bem, já o vimos, a baixas temperaturas e, umas três horas e meia volvidas, lá acordo eu com uma desagradabilíssima sensação de frio, associada a uma fina dor-de-cabeça. Obviamente, a primeira coisa que me veio à cabeça, depois de puxar o cobertor e o lençol para o queixo, foi Mas quem é que é o idiota que tem FRIO em Goa em março, ainda por cima em plena vaga de calor?!? O que fazer, então? Os “ses” começavam a acotovelar-se na minha cabeça: se desligar o ar-condicionado, fico certamente sem frio e sem dor de cabeça (o que é bom!), mas o quarto não se tornará numa fornalha demasiado incandescente até para mim? Mas…e se eu abrir a janela, como fiz toda a vida, até porque vi que ela tem uma rede mosquiteira? Hummmm… mas e se a rede tiver algum buraco (lá vou eu investigar a dita rede, que me parece perfeita…contudo, e se me passou algum buraco à revista, e entra por lá qualquer bicharoco mortífero?). E se recorrer à tradicional ventoinha? (ligo-a, e também acho que fica excessivamente fresco). Enfim… os que me conhecem imaginam bem o rosário de hipóteses e conjeturas que me passaram pela mente e os milhentos cenários que desenhei, para acabar sempre num impasse começado pelo inevitável e irritante e se? Recorri, neste transe – que ainda acabava, a continuar, por me garantir uma encantadora constipação – a um meio que admito ser pouco autónomo, mas que se revelou extremamente eficaz: pais, o que acham melhor fazer? Os meus progenitores, cientes da minha patética e atávica fixação em fugir dos mosquitos eventualmente portadores de malária (dessa, creio que nem o apreciar tanto esta terra jamais me livrará) e achando certamente que eu deveria era deitar-me e descansar, aconselharam-me de forma certeira e eficaz: faz um chá, toma um brufen (bye, dor de cabeça!), abre a janela (tem rede, não faz mal, não sejas palerma, mas se ficares seguro aplica um pouco mais de repelente) e DORME!
Este é, aqui chegados, um caso em que se pode dizer: ainda bem que há pais! Embalado pelo cheiro da noite, pelo calor e pelos sons distantes, recuperei outra parte do meu sono!
Tudo isto para concluir que, afinal, não me dou bem com o ar-condicionado! Sou, quem sabe, talvez demasiado primitivo (ou, mesmo, pouco civilizado), mas aquilo faz-me confusão. Uma janela aberta guarnecida com uma rede eficaz e o calor dos trópicos são, para mim, um indutor de sono muito mais eficaz! ;)
Já se ouve o cântico final, num concani não muito afinado…a missa em S. Sebastião acabou e o dia começa nesta Goa pacata, quente, que é católica e trata os portugueses como uns primos distantes que, de vez em quando, gostam de fazer uma visita. É altura de saltar para o duche e, em seguida, tomar o pequeno-almoço no terraço. Depois, há muito para fazer! Bom dia para todos desde a outra Lisboa! J

2 Comments:

At 2:08 AM, Blogger coisasnumacaixa said...

Bom dia!
Ainda bem que a viagem correu bem e que já te encontras instalado. Agora vê lá, não comeces já a comer batatinhas de arraial ao pequeno almoço, que o teu organismo, com a sua atual dieta, é capaz de não se dar bem.
Diverte-te!

 
At 2:32 AM, Blogger Joanight said...

E o que será mais estranho? Alguém conseguir ter calor em Goa, ou bastar abrir a janela uns breves momentos, para se anular todo o efeito do ar condicionado? :P

Diverte-te entre os teus papeis velhos :)

 

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