Thursday, October 09, 2008

Honrosa excepção

Não é, de forma alguma, prática corrente destes Prazos do Serrazim usar textos (por muito interessantes que sejam) de outrém. A política da casa é: quem os quiser ler, que os procure por esses cibernéticos espaços fora. No entanto, para toda a (boa ou má) regra há uma excepção. E, na verdade, gostámos tanto deste texto de PVG, publicado na edição de ontem do Público, que não resistimos a transcrevê-lo aqui:

" A Fundação Oriente e uma escola de Navelim, ao pé de Margão, em Goa, organizam vai para uma década um concurso da canção portuguesa. Este ano, a sessão final do concurso teve lugar no passado fim de semana no quase centenário Clube Harmonia de Margão com a presença de centenas de pessoas, talvez mil. No palco, gente que nasceu e vive em Goa, miúdos e adolescentes, num português ora incerto, ora tão bom como o meu ou o dos leitores, e adultos que falam português de leite, saudavam os presentes, apresentavam as canções, cantavam. Três ou quatro raparigas de óptima voz, um ou outro instrumentista de grande qualidade. Uma cantora muito jovem de quem, ou me engano muito, ou vamos todos ouvir falar um dia, todos, por toda a parte. As canções eram de Mariza e Maria Bethânia, de Tony Carreira e Roberto Leal, e de outros mais, aquilo de que os jovens e as suas famílias gostam, aquilo a que têm acesso, aquilo que lhe soa bem. Actuaram 24 cantores e grupos, quase todos de gente jovem e desempoeirada. Em casa, os pais falam às vezes português, os avós sempre. Mas também o concanim, que é a língua de Goa, e o inglês. Éramos ali mil e sabemos todos que somos muito mais de mil, dezenas de vezes mil, aqueles que, em Goa, se reconhecem com um "Bom dia, como está?" Há escolas onde se ensina português, bairros onde se fala português à porta das casas, jovens que, em sociedade, fazem questão de falar português como sinal de distinção. Goa é o único sítio do mundo onde o português não é língua de porteiras, lojistas ou aldeões emigrados, mas uma língua elegante que distingue quem a utiliza. Sobretudo, é a língua que imediatamente cria entre os seus falantes reunidos em festa uma espécie de encantamento colectivo, como se todos pertencêssemos a um clube muito antigo e muito distinto.Os goeses, que não são portugueses, são os melhores portugueses que há. Têm a boa fortuna de não ter sido apoucados pela vida pequena que vocês aí vivem todos os dias: difícil e mal encarada, sem memória da história passada e sem ninguém que lhes ofereça uma história futura. Têm aquilo que aí não há: gentileza, alegria e orgulho em relação à história que os liga entre si. Trazem-me a ideia de um país que nunca existiu como eu gosto de o imaginar, melhor que aquele que existe realmente. Estes goeses-que-não-são-portugueses cantaram em português no Clube Harmonia, bateram palmas, suaram em bica no calor crescente que anunciava uma tempestade de Outubro. Quando a festa acabou e as pessoas se levantaram, desabou de repente sobre a cobertura de zinco da esplanada onde o espectáculo tivera lugar uma chuvada densa como uma seara. Na sala de baile, ali ao lado, começaram a dançar vários pares ao som de uma banda que retomava alguns temas do concurso. Entrou um vento violento pelas portas e janelas, carregado de água. Casais de jovens que apanhavam fresco nas varandas fugiram para a sala, encharcados, sorridentes.Meu Portugal feliz e tropical"

1 Comments:

At 1:33 PM, Anonymous Anonymous said...

Os extremistas hindus, que detestam irracionalmente tudo o que é português, devem rebentar de raiva com estes eventos populares tão inocentes! Esses acreditam ainda que um dia os portugueses podem regressar e recuperar o que perderam - tal é a má-consciência com que ocuparam Goa e nem tiveram coragem de perguntar ao povo se queriam ser indianos, portugueses ou independentes ?

 

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